À Comunidade Universitária,
Estimulados por manifestações de vários setores
da comunidade universitária, decidimos concorrer aos cargos de
Reitor e Vice-Reitora da UFMG. Neste primeiro contato, queremos dividir
as reflexões que pautam as propostas que traremos à consideração
de todos.
As transformações em curso no Brasil e no mundo repercutem
na universidade brasileira. O sistema federal avançou nas últimas
décadas. Mas, ao mesmo tempo em que passa por crises constantes,
perde espaço em projetos nacionais dirigidos pelo imediatismo.
Por outro lado, a sociedade exige uma universidade mais democrática
e inclusiva, de melhor qualidade e maior criatividade. Identificar as
mudanças necessárias para fazer a universidade cada vez
mais relevante é, hoje, nosso maior desafio.
Universidade: tempo de experimentação
Um componente utópico é indissociável à
nossa concepção de universidade de espírito humanista,
democrático e republicano. Utopia é o instrumento para
desafiar o presente e imaginar que é possível um mundo
melhor, mais justo e feliz. E experimentação é
a via pela qual o sonhado se materializa. Para nós, a Universidade
é um laboratório da civilização, onde a
igualdade se constrói, a pertinência a um projeto se dá
por adesão, a divergência prévia é requisito
para a formação de consensos, e a política é
assunto de todos. O momento é propício para testar novas
formas de produção e difusão do conhecimento, pensar
a cultura como elemento estruturante da interação de todas
as áreas, delinear políticas diversificadas de inclusão
social. É tempo de experimentar.
UFMG: tempo e lugar presentes
Experimentar requer conhecimento, para além das generosas intenções.
A gestão universitária exige profundo conhecimento da
instituição, disposição para o debate, respeito
às diferenças e valorização da diversidade.
A UFMG, um organismo complexo, demanda projetos distintos, diferentes
facetas de um destino comum. Medidas específicas, adequadas a
cada realidade local, continuarão a dar forma a uma UFMG em que
todas as suas áreas caminhem para a excelência acadêmica
e o reconhecimento da sociedade e da comunidade científica.
A cada área emergente: demandaremos seu plano de inserção
no projeto da UFMG, estabelecendo a contrapartida e o apoio da instituição.
A cada área em consolidação: examinaremos as condições
para sua definitiva constituição como referência
nacional, e para o suporte institucional necessário. Intensificaremos
o diálogo com cada área de excelência para remover
os entraves ao seu pleno funcionamento. Todas as áreas compartilharão
o espaço da definição das grandes políticas
institucionais.
Convidamos os estudantes para reaver o espaço da polêmica,
que sempre foi seu: debateremos com vocês o sentido de cada projeto;
ouviremos suas demandas, repactuaremos os espaços de pertencimento
e de inserção, reafirmando a vida e a alma desta universidade.
Convidamos os técnico-administrativos para constituir a cidadania
universitária, num processo que não será fácil,
mas que é urgente e necessário. Os destinos da academia
são de sua alçada – e o seu sentido público,
partilhado por todos. Com sua criatividade, construiremos um ambiente
de trabalho solidário e justo, onde o reconhecimento retribua
o trabalho sério e dedicado.
Convidamos os docentes a partilhar a idéia de que liberdade
e igualdade, requisitos formais da república, são cotidianamente
re-inventadas em nosso trabalho, lembrando que o conhecimento é
parceiro indissociável da utopia.
À comunidade, a instituição precisa oferecer os
espaços para sonhar, e os sonhos aos quais aderir. Chamamos para
a construção das utopias partilhadas – aquelas que
valem a pena, quando as almas não são pequenas –
em uma universidade ancorada em valores universais e fortemente enraizada
nas Minas Gerais. E reafirmamos: uma universidade é republicana
pela primazia do valor público de seu espaço, pelo apreço
à qualidade de suas instâncias decisórias que funcionam
sob a forma de conselhos, pelo espírito associativo que anima
sua origem, pelo princípio da excelência e do mérito
que a norteia. Mas uma universidade é principalmente republicana
quando assume viver na cidade que a abriga e no país que a criou,
faz deles seu bem maior, e para ambos destina o melhor de sua ações,
de suas idéias, de suas obras.
UFMG, 1º de agosto de 2005
Ronaldo Pena e Heloisa Starling